Da ideia ao impacto: a inovação que nasce na UFPA e chega ao mercado

Com apoio da incubação do PIEBT/SInD UFPA, empresas de diferentes áreas transformam conhecimento em soluções inovadoras que geram desenvolvimento econômico, social e ambiental para a Amazônia.

A inovação começa na universidade

Toda empresa inovadora começa com uma ideia. Mas, para que ela se transforme em um negócio capaz de gerar impacto, é preciso conhecimento, planejamento, conexões e apoio especializado. Na Universidade Federal do Pará, esse caminho é fortalecido pela Superintendência de Inovação e Desenvolvimento (SInD), unidade responsável por promover a inovação, o empreendedorismo, a proteção da propriedade intelectual, a transferência de tecnologia e a articulação de parcerias entre a universidade e a sociedade. Entre suas iniciativas está o Programa de Incubação de Empresas de Base Tecnológica (PIEBT), que apoia empreendedores no desenvolvimento de negócios inovadores por meio de mentorias, capacitações, conexões estratégicas e acompanhamento especializado. O programa não é exclusivo para quem já tem vínculo com a universidade: estudantes, egressos, professores e pesquisadores podem participar, mas empreendedores totalmente externos à UFPA também podem incubar seus negócios e passar a se conectar com o ecossistema de inovação a partir da incubação. Mais do que oferecer infraestrutura física, o programa contribui para aproximar o conhecimento produzido na universidade das demandas do mercado, fortalecendo o ecossistema de inovação da UFPA e estimulando soluções capazes de gerar impacto econômico, social e ambiental, especialmente na Amazônia.

As histórias da Ahhhh! Mazônia Veg & Cia, Remota Engenharia e Quri Natural Beauty mostram como esse apoio se traduz na prática — em setores tão diferentes quanto alimentação, engenharia e cosméticos — e como a incubação pode acelerar o desenvolvimento de empresas ao conectar ciência, inovação e mercado.

Três histórias, um mesmo propósito

Embora atuem em áreas distintas, as três empresas compartilham uma trajetória semelhante: nasceram de uma necessidade real, encontraram na SInD o apoio para amadurecer e, hoje, seguem caminhos de crescimento cada vez mais conectados à universidade.

Ahhhh! Mazônia Veg & Cia — inovação em alimentos amazônicos

@ahhhhmazoniavegecia

Empresa de base tecnológica atuante na indústria de transformação de alimentos, a Ahhhh! Mazônia Veg & Cia desenvolve misturas alimentícias veganas, sem glúten e sem lactose, formuladas a partir de ingredientes da biodiversidade amazônica, como cacau, pupunha e cumaru.

Como nasceu a ideia

A trajetória da empresa começou na cozinha de casa. “Eu comecei fazendo bolo pronto. Na verdade, eu vendia bolo vegano para o Supermercado Líder. Era um bolo assado, embalado, em formato de rosa”, conta Shirlen, fundadora da empresa. Mas a motivação foi além do empreendedorismo: veio de uma questão familiar. “A minha mãe começou a desenvolver várias alergias alimentares. Ela passava mal sempre que comia e ninguém entendia o motivo. Depois descobrimos que ela tinha alergia ao leite, ao glúten, aos ovos e praticamente a qualquer proteína de origem animal”, relembra. “Como ela adorava bolo e não podia mais comer, eu comecei a desenvolver receitas para que ela pudesse voltar a comer aquilo de que gostava.” Foi essa busca pessoal que a levou a estudar Gastronomia e Nutrição Natural, até desenvolver um mix de farinhas sem glúten — farinha de arroz, fécula de batata, fécula de mandioca e goma xantana — capaz de substituir o trigo em receitas doces.

Como conheceu a SInD

“Conheci a SInD por indicação de um amigo. Eu precisava de um espaço para produzir. Como trabalho com alimentos, precisava de uma estrutura adequada”, explica Shirlen.

O que mudou depois da incubação

Além da estrutura física, a incubação trouxe um ganho que ela considera ainda mais valioso: a credibilidade. “Além da estrutura, a universidade transmite credibilidade. Quando digo que estou incubada na universidade, isso abre portas e gera confiança”, afirma Shirlen.

Onde a empresa está hoje

A produção, que começou totalmente manual — “pesava um por um, enchia os sachês, selava todos na mão” —, hoje conta com uma dosadora e outros equipamentos que agilizaram o processo, adquiridos com apoio do programa Sinapse, ao qual teve acesso durante o seu doutorado , realizado na própria UFPA. A empresa também estuda registrar patente de sua tecnologia, depois de ouvir de um empresário parceiro que o diferencial “não era a receita, mas a inovação”.

Próximos passos

“Agora quero organizar toda a documentação, regularizar o novo espaço junto à Vigilância Sanitária e ampliar a produção. Também quero desenvolver novos produtos utilizando ingredientes amazônicos”, projeta Shirlen.

Remota Engenharia — tecnologias para engenharia e Indústria 4.0

@remotaengenharia

Startup que integra recursos avançados da indústria 4.0 a serviços de engenharia, a Remota utiliza drones e modelagem tridimensional para transformar as inspeções estruturais, tradicionalmente manuais e de acesso limitado.

Como nasceu a ideia

“A Remota começou em 2022. Sempre trabalhei com inspeção e um amigo me perguntou se eu conhecia alguma empresa que fizesse inspeção com drones. Na época isso ainda era muito novo, principalmente aqui em Belém”, conta Karoline, fundadora da empresa. O primeiro trabalho, para uma empresa do Rio de Janeiro que atuava na fachada do Shopping Boulevard Belém, revelou uma lacuna de mercado: “Percebi que em Belém não existia esse tipo de serviço. […] Com os drones, o engenheiro passa a ter uma visão muito mais completa da estrutura”, explica.

Como conheceu a SInD

“Quando surgiu o Tecnova percebemos que precisávamos estar ainda mais próximos da universidade. Um colega incubado na SInD me indicou o programa”, relata Karoline. “Conversei com a equipe, conheci o funcionamento da incubadora, submetemos nosso projeto e fomos incubados este ano.”

O processo de incubação

Antes da incubação, a empresa já buscava editais de fomento para viabilizar a compra de equipamentos. “Tecnologia exige investimento e os equipamentos são muito caros. […] Foi então que submetemos o projeto ao Centelha. Fomos aprovados e conseguimos recursos para comprar uma estrutura mínima e iniciar as validações”, lembra.

O que mudou depois da incubação

“A incubação mudou muita coisa. Antes trabalhávamos em um espaço muito pequeno. Hoje temos uma estrutura muito melhor, conseguimos ampliar nossa equipe e tivemos acesso a novas oportunidades de capacitação e editais”, afirma Karoline. Onde a empresa está hoje “Hoje já temos alguns serviços completamente estruturados. Fazemos inspeções, criamos modelos digitais e emitimos relatórios técnicos”, diz. A equipe é formada por três sócios, um administrador, um engenheiro e bolsistas da graduação, além de projetos financiados pelo CNPq. A empresa já realizou serviços fora da Região Metropolitana de Belém, como na cidade de Marabá, no sul do Pará.

Próximos passos

“Agora estamos concentrados no desenvolvimento da plataforma, que representa nosso principal projeto de inovação”, adianta Karoline. A ferramenta permitirá monitoramento contínuo de estruturas com uso de inteligência artificial para identificar patologias automaticamente, com o objetivo de atender clientes em outras regiões da Amazônia e, no futuro, em todo o Brasil.

Quri Natural Beauty — biotecnologia e cosméticos naturais da Amazônia

@qurinaturalbeauty

Marca de cosméticos naturais, a Quri transforma óleos e manteigas vegetais da Amazônia em produtos de beleza veganos e cruelty-free, unindo biotecnologia verde a uma cadeia ética com comunidades extrativistas — um trabalho que já rendeu à marca espaço na curadoria fixa do Mata Lab, em São Paulo.

Como nasceu a ideia

Farmacêutica de formação, Daniela conta que o interesse pela biodiversidade amazônica começou ainda na graduação: “Eu passei numa seleção para fazer iniciação científica […] A gente fez um projeto de pesquisa sobre desenvolvimento de produtos à base de óleos vegetais da Amazônia.” A escolha pelo natural também tem raízes pessoais: “Minha família é daqui, então eu tive uma infância de usar chá, usar erva, usar óleo, essas coisas mais naturais.” Antes de fundar a Quri, ela viveu dez anos no Rio de Janeiro e, durante a pandemia, ajudou a estruturar uma linha de produção de álcool em gel dentro de uma farmácia de manipulação — experiência que a convenceu de que também conseguiria “construir a minha” própria fábrica.

Como conheceu a SInD

“Eu já tinha ouvido falar na época que ainda era Universitec […] mas eu não sabia como chegar na universidade”, relembra. Foi só depois de passar por outros programas de aceleração que alguém da instituição a incentivou a tentar: “você precisa tentar entrar, fazer um projeto, porque isso pode ser muito importante para você conseguir essas parcerias”.

O processo de incubação

Daniela destaca que a incubação tem proporcionado conexões importantes com a universidade. “Eu tenho uma parceria com um laboratório de Farmácia aqui dentro da universidade […] Esse foi um dos motivos também de eu vir para a incubadora: aproximar a empresa da ciência, da tecnologia e da academia.”

Ela também possui um projeto aprovado na chamada pública Tecnova III, voltado ao desenvolvimento de um produto baseado em tecnologia da universidade, com transferência de propriedade intelectual.

O que mudou depois da incubação

“Essa é uma vantagem de estar aqui: essa aproximação. Porque a gente nem sabe os projetos que existem dentro da universidade”, afirma. Para ela, a incubação também confere um diferencial competitivo: “é diferente de uma empresa privada de fora, que está longe da universidade e precisa criar esse vínculo.”

Onde a empresa está hoje

Com uma estrutura industrial autorizada pela Anvisa, a Quri produz cosméticos naturais a partir de ingredientes da biodiversidade amazônica e comercializa seus produtos para todo o Brasil por meio do e-commerce. A marca também está presente em pontos físicos colaborativos, como o Espaço São José Liberto, em Belém, além de lojas parceiras na região Sudeste.

Próximos passos

“A gente não tem pressa de ter uma linha com 30 ou 50 produtos. A gente quer ser reconhecida como uma marca que vende produtos de alto valor agregado e com inovação”, projeta Daniela, que segue avançando na transferência de tecnologia com a universidade.

Muito além da incubação

Para Filipe Saraiva, superintendente da SInD, a incubadora oferece muito mais do que espaço físico para produzir. “A SInD fornece infraestrutura, aconselhamento, capacitação e conexão com diferentes atores do mercado e do ecossistema de inovação em geral”, resume.

A diversidade de setores atendidos — que vai de tecnologias digitais e drones a alimentos e cosméticos — é, segundo Filipe Saraiva, um reflexo direto da própria universidade: “A UFPA é uma universidade extremamente diversa. Tem diferentes programas de pós-graduação, e isso naturalmente reflete na inovação. […] Mesmo sendo muito diferentes entre si, em todas elas a gente consegue gerar inovação.”

Essa proximidade com a universidade também é apontada como um fator de credibilidade para o mercado. “Olha, é isso: quem produz ciência, tecnologia e inovação no Brasil são as universidades. […] Então você ter uma empresa que está dentro da universidade dá uma outra visibilidade para quem está de fora”, explica. Muitas dessas empresas, acrescenta, também recrutam sua equipe dentro do próprio ambiente acadêmico: “muitas das pessoas que trabalham nessas empresas são alunos de graduação ou de mestrado que a empresa capta ali mesmo no ambiente da universidade.”

A incubação, no entanto, não é exclusiva de quem já tem vínculo com a UFPA. “não é preciso ser da UFPA, nem ser aluno, nem professor, nem pesquisador, nem técnico […] o público externo também pode incubar a sua empresa aqui e ter conexões com a universidade a partir da empresa, a partir da incubação. Não há uma restrição quanto a isso”, reforça Filipe Saraiva.

O impacto da SInD em números

O ecossistema de inovação da UFPA reúne hoje 12 empresas incubadas e mais de 70 empresas já atendidas pelos seus ambientes de inovação — entre eles o PIEBT, a Incubadora do Xingu e o Tecnolago. Na área de propriedade intelectual, os números consolidados até 2025 somam 389 patentes depositadas, 100 patentes concedidas e 573 propriedades registradas. Já em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, a universidade contabiliza, desde 2020, 84 projetos realizados, 22 aprovados somente em 2025 e mais de R$ 168 milhões em recursos captados no último ano.

Parte desse fomento chega às empresas por meio de editais como o Centelha, o Tecnova e o Sinapse, citados pelas próprias empreendedoras ao longo da reportagem: o Centelha apoiou a fase inicial da Remota Engenharia, viabilizando a compra da estrutura mínima para começar as validações; o Tecnova III sustenta o projeto de transferência de tecnologia da Quri Natural Beauty com um laboratório da UFPA; e o Sinapse, acessado por meio do doutorado, ajudou a Ahhhh! Mazônia Veg & Cia a adquirir equipamentos que agilizaram sua produção. Juntos, esses programas ilustram como o fomento público se conecta diretamente às trajetórias apresentadas nesta matéria.

As trajetórias da Ahhhh! Mazônia Veg & Cia, da Remota Engenharia e da Quri Natural Beauty demonstram que a inovação não termina no laboratório. Com o apoio da SInD, ideias se transformam em negócios, fortalecendo a conexão entre universidade e mercado.

Ao incentivar a criação e o desenvolvimento de empresas inovadoras, a UFPA amplia o impacto do conhecimento produzido em seus laboratórios, grupos de pesquisa e iniciativas empreendedoras. Nesse contexto, a SInD atua como ponte entre a produção científica e o setor produtivo, criando oportunidades para que tecnologias, produtos e serviços desenvolvidos na universidade gerem impacto para a sociedade e contribuam para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Investir em inovação é investir no desenvolvimento da Amazônia.